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sábado, 22 de maio de 2010

Uma lição da história!

Estudando história temos a oportunidade de pensar sobre acontecimentos considerados importantes para a sociedade humana, buscando compreender o significado daquele determinado evento para o nosso momento, nossa vida, estabelecendo relações capazes de nos fazer desconstruir certos discursos e enxergar em profundidade uma série eventos que nos rodeiam.

Um desses acontecimentos foi a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929. Esse evento trouxe-nos alguns questionamentos. A doutrina liberal que predominava na economia, defendia com unhas e dentes a não-interferência do Estado nas relações econômicas. A ideia era que o Mercado possuia capacidade autoregulatória, dispensando a presença do Estado para manter equilibradas a economia. Este deveria apenas atuar como regulamentador de situações ligadas a questões sociais. A quebra da Bolsa de Nova Iorque mostrou que o pensamento liberal possuia fragilidades. A crise econômica que se instalou no mundo inteiro a partir desse evento, somente foi solucionada com a atuação do repudiado Estado. Jonh Maynard Keynes propõe, em suas teorias filosóficas econômicas, que o Estado intervenha na economia para garantir a sobrevivência do sistema capitalista, atuando como garantidor e fomentador. Será, portanto, com a interferência do Estado que os capitalistas poderão recuperar seu status quo, arvorando-se como independentes da gestão pública.

O que nos ensinou tal episódio? A lição apresentada na ocasião valeu para todas as demais situações posteriores: mantenha o Estado fora da economia quando está-se obtendo lucros excessivos e, quando se instala uma crise, convoca-o para resolver o problema. Em todas as crises econômicas que se instalaram no mundo ou em alguns países, foi o dinheiro público - cuja destinação deveria teoricamente ser utilizada para o bem estar da população na melhoria das condições de infraestrutura e questões sociais - quem retirou da bancarrota os valores capitalistas e garantiu a sobrevivência do sistema. A crise econômica de 2009, somente foi reesolvida com a interferência do poder público dos gestores estatais. Vislumbre-se que ao falar em crise econômica esquecemos de dizer que ela é uma crise econômica privada, dos empresários e multinacionais, bancos e outras instituições financeiras. A pressão sobre os governos se faz por conta dos efeitos que as crises tem sobre a população, justiticando-se o motivo pelo qual a atuação do Estado na solução do problema acaba por cumprir com uma de suas funções que é a de garantir a ordem e estabilidade da sociedade.

Perceba-se, com isso, que estudar história não é simplesmente repetir os acontecimentos passados, escolhidos por alguns estudiosos para ser destaque em um livro didático. A razão de estudarmos a história mundial, nacional e local é para com ela aprendermos a lições que nos servirão na discussão e construção do futuro. Quem não tem memória acaba cometendo os mesmos erros. A história não é um conjunto de fatos antigos que não interessa a ninguém. É antes um arsenal que prepara o sujeito para atuar com consciência, sabendo porque deve assumir essa ou aquela postura diante dos acontecimentos, fornecendo os argumentos e a capacidade analítica de que precisamos para atuar politicamente e ativamente em nossa sociedade.

Todos podemos aprender com os erros e acertos daqueles que vieram antes de nós e, com isso, encurtar o caminho até a realização do desejo incutido em nosso coração: alcançar a felicidade.
Edmario Nascimento da Silva

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A sociedade e o conflito

Um dos traços marcantes dos seres humanos é o fato de que vive em constante conflito: consigo por algo que fez ou deixou de fazer, por não ser melhor ou por perder oportunidades; conflito com os outros porque não consegue compreender suas ideias ou o que está sendo dito; conflito com a natureza, dado a inclinação para querer domesticar tudo ao seu redor.

O conflito é um fato concreto, real, inerente a espécie humana e de grande importância. A vida em sociedade gera inevitavelmente o conflito. Onde duas ou três pessoas estiverem reunidas, conversando sobre assuntos banais ou de grande relevância, instalar-se-á o conflito. A razão disso reside na capacidade inata de gerarmos ideias e pensamentos distintos dos demais. É uma marca implícita da condição humana.

Muitos entendem que para se viver em sociedade de forma harmônica e em paz é necessário que não haja o conflito. Contudo, esse elemento é vital, essencial e indispensável para a sociedade. A discordância de ideias possibilitou, possibilita e possibilitará que avancemos nas descobertas científicas, nos valores políticos, éticos, morais e estéticos, no desenvolvimento e aperfeiçoamento do espaço geográfico, nas soluções de problemas em comum. O conflito estimula a inteligência. A questão, portanto, não é a ausência do conflito para que possamos viver em uma sociedade unida, harmônica e em paz. O que se faz necessário é aprender a lidar com conflito, buscar nele motivo para superação. Falta para a sociedade a capacidade de dialogar - cuja ausência é muito mais grave.

Fomos educados para entender os momentos de conflito como desagradáveis, indigestos, desnecessários e improdutivos. Aprendemos a mascarar as situações: dizer sim quando deveríamos dizer não, sorrir quando queríamos chorar, aplaudir quando queríamos esbravejar, calar quando queríamos fociferar a plenos pulmões as nossas razões. Nessa sequência, procuramos evitar a todo custo o conflito para não nos sentirmos feridos ou ferir. Sempre que isso nos acontece, perdemos a oportunidade de aprender a gerenciar um momento que é rico de oportunidades: para o aprendizado do diálogo, para o exercício da tolerância, a prática da análise e argumentação, a defesa de posicionamento a partir de ideias, o treino da escuta sensível que torna capaz utilizar as palavras certas para abrir portas e conquistar corações e mentes... e assim, uma série de benfeitorias possíveis de acontecer.

Uma sociedade harmônica não é uma sociedade sem conflitos. Antes, é a expressão de uma sociedade que aprendeu a dialogar a partir dos seus conflitos, aproveitando para ressaltar o melhor e mais útil. Uma sociedade harmônica é aquela que não foge das controvérsias inevitáveis advindas de uma complexidade formada por indivíduos dotados de inteligência e particularidades, mas potencializa aspectos relevantes que tornam salutar a discussão, o debate, a argumentação, a paixão e os sentimentos. A paz tão buscada não irá surgir da ausência de conflitos, mas da capacidade de gerenciá-los.

Portanto, cabe educarmo-nos para vivermos autenticamente em grupo, com todas as situações oriundas dessa condição, não negando a nossa natureza conflitante, posto que isso só ocorre devido ao uso de nosso maior dom: a inteligência. Usemos, então, de inteligência para resolver os enigmas que outras inteligências criam em nosso dia-a-dia sem precisar incorporar o Massaranduba (aquele do Casseta & Planeta).
Edmario Nascimento da Silva

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A vida em sociedade

Viver em sociedade garantiu a espécie humana não só sobreviver mas também possibilitou avanços e desenvolvimento de estruturas complexas e que se aperfeiçoam a medida que novas exigências vão sendo colocadas pelas diversidades e adversidades que a vida em grupo impõem.

Poderíamos elencar vários fatores importantes para uma convivência possível em sociedade, contudo, vamos nos concentrar unicamente em um: o trabalho. É através do trabalho - como já constatamos em outra oportunidade, ao analisar a formação do espaço geográfico - que o ser humano consegue garantir sua sobrevivência, fazendo surgir inúmeras funções e atividades que só se tornaram possível a partir do momento em que a oferta de alimentos tornou-se suficiente e liberou parte da população para atuar em outras áreas de interesse. O trabalho garante a existência material (casa, comida, roupa, transporte...) do indivíduo mas, também garante a sua existência imaterial, psicológica, invisível, imaginária. Uma sociedade será tanto mais complexa quanto mais complexas forem as atividades e funções desempenhadas pelos indivíduos em seu interior.

Quando estamos estudando a organização do espaço geográfico, pode parecer que foi somente quando o ser humano começou a viver em grupo que as atividades destinadas a garantir a sobrevivência passaram a ser organizadas. No entanto, cabe a ressalva de que foi a organização de tais atividades quem organizou a vivência em grupo. Todo o espaço geográfico está organizado em função do trabalho.

A produção de riqueza, o luxo, o ócio, o lazer e todas as beneses de que alguns poucos desfrutam em nossa sociedade somente são possíveis porque existe alguém para trabalhar e pagar por isso. Quando falamos que há desigualdade social, muitas vezes nos escapa o fato de que essa desigualdade não está no fato de, simplesmente, não termos acesso ao bens e serviços, e sim no fato de que não valorizamos quem de fato proporciona a existência desse bens e serviços.

Quando em exercício de raciocínio, imaginamos quais os elementos indispensáveis para a vida em sociedade, enumeramos sentimentos e valores como o amor, a compreensão, o respeito, o diálogo, a paz, o perdão...etc, deixamos de observar que tudo isso só será possível se, e somente se, houver o reconhecimento devido de que tudo deriva do trabalho.

Nossa sociedade construiu-se sobre um lema: O trabalho dignifica o homem. Contudo, diante da forma como os trabalhadores são expropriados de sua dignidade no cotidiano, seria melhor fazermos uma correção na frase: O trabalho DANIFICA o homem. Assim sendo, procuremos analisar em nosso dia a dia qual o papel que cada um desempenha na construção desse clube que chamamos de sociedade.
Edmario Nascimento da Silva

terça-feira, 4 de maio de 2010

Afinal, que bicho é esse?

Não! Não vamos falar aqui de uma espécie exótica qualquer. Trata-se de um espécime complexo, de difícil convivência, com muitas artimanhas, capaz de enganar os ingênuos. Parece dócil mas é muito perigoso. Muito cuidado ao lidar com ele pois sua mordida é mortal.

Estamos falando do Estado! Entender o que é e como funciona essa entidade fantástica e ficcional não é tarefa simples. Requer atenção a muitas entrelinhas, muita leitura e reflexão e uma observação aguda. Historicamente, surgiu ainda no período da antiguidade clássica a partir do desenvolvimento da agricultura, da aglomeração das aldeias e da diversificação da tarefas e funções. Várias teorias tratam do surgimento do Estado. Os intelectuais do iluminismo concordavam em certa medida com a ideia do contratualismo, ou seja, de que ele é fruto de um consenso entre os indivíduos. Dir-se-ia que a intenção de sua criação está associada a necessidade de ter um terceiro com capacidade para decidir as questões entre os indivíduos que compunham a sociedade. Forma-se um grupo de pessoas cuja função é gerenciar os aparelhos estatais. De lá para cá várias transformações na sociedade promoveram também transformações no Estado.

As obras de Hobbes, Montesquieu, Rousseau, Locke, Voltaire, Maquiavel e Marx nos dão uma visão panorâmica do que vem a ser essa criatura difícil de compreender.

A principal característica a ser considerada com relação ao Estado, entre outras que podem esclarecer o seu papel junto a sociedade, é o de ser o portador do direito de criar as leis. É através do sistema jurídico que ele mantém um controle da vida da sociedade - entenda-se que ao falar vida são todos os aspectos: trabalho, salários, educação, tributos, taxas, alimentação, meio ambiente etc. As leis são tentáculos invisíveis que se estendem até os cidadãos e os controlam de seu nascimento até sua morte, dizendo o que pode e o que não pode ser feito, quando e como devem agir cada indivíduo. O principal é que ele, o Estado, cria uma ilusão capaz de cegar os indivíduos. Em seu surgimento esperava-se que ele regulamenta-se a convivência entre as pessoas, nos dias atuais o que se observa é seu uso por um pequeno grupo para satisfazer suas ambições e, o que é mais grave, não é esse grupo que ocupa o aparelho estatal quem comanda tudo. São também eles subordinados de um grupo menor e que é invisível aos olhos mortais, desavisados, desinformados, desatentos e obrigados a olhar apenas para a sua sombra, com a cabeça abaixada pelo peso dos problemas sociais e das dificuldades que encontram para garantir a sua sobrevivência.

Não é possível esgotar a discussão sobre o Estado em apenas algumas poucas linhas ou em uma ou duas conversas. Requer leituras e debates diversos. É preciso se cercar de muitas informações e reflexões, está disposto a debater mas, principalmente, estar aberto para compreender as ideias antes de aceitá-las ou rejeitá-las.
Edmario Nascimento da Silva

domingo, 2 de maio de 2010

Democracia e liberdade!

Ouvimos sempre alguém dizer que vivemos em um país democrático, onde as pessoas tem liberdade e podem expressar o que pensam. Mas, de fato, o que vem a ser a democracia e o que é ter liberdade?

Na Grécia Antiga, berço da cultura ocidental, criou-se a ideia de democracia. Lá, todos os cidadãos tinham o direito de participar ativamente da vida política das cidades-estados. Para isso, cada indivíduo grego recebia uma educação fundamentada na filosofia, na retórica, na poesia e na política. Os valores que formavam o pensamento humano eram o principal ponto de atenção dos mestres e educadores. Procurava-se estimular o pensamento. Cada indivíduo era educado para ser um governante, a pensar nos problemas diversos da cidade-estado e a posicionar-se quanto a esses problemas. Eram preparados para defender suas ideias através de discursos que falassem para o lado racional e emocional das pessoas e, dessa forma, conseguir o maior número de defensores para a causa que sustentava. Observe-se com muita atenção que cada cidadão exercia diretamente o seu direito político, a sua vontade. Lógico que sempre houve um ou outro que se destacava e, por isso, conseguia arregimentar o maior número de adeptos para suas causas, mas não se alijava nenhum cidadão do processo decisório. Note-se, portanto, que a ideia de democracia fundada na Grécia tem como respaldo o fato de que se deve preparar o indivíduo para exercer e assumir o seu papel dentro da vida política da cidade.

Com a formação dos Estados Modernos, o aumento das fronteiras e do número de habitantes tornaram-se um obstáculo cada vez maior ao exercício da atividade política direta pelos indivíduos. Destarte, criou-se um sistema de representação política para expressar a vontade da população e tornar possível a organização do Estado e de seus orgãos. A vontade do povo passou a ser, teoricamente, defendida por seus representantes políticos. Tem-se, assim, a democracia realizada de forma indireta. Já não mais é possível ouvir em um lugar só a todos os que tem algo para falar sobre como devem ser geridos os assuntos da pátria. Dessa forma, perde-se o interesse em oferecer aos indivíduos uma educação que o torne apto  ao exercício do pensar e de expressar esse pensamento de forma sistemática e consistente. Deixou-se de preparar os sujeitos para serem governantes de seu país e começou um treinamento para que estes sejam governados. Em síntese, a democracia começou como forma de garantir a todos os cidadãos participarem do processo decisório e de governo de sua nação e culminou nos dias atuais em uma forma de mascarar os desmandos de pequenos grupos.

Mas até agora não falamos em liberdade. A democracia ocupou-nos um bom espaço, mas a liberdade é o centro gravitacional de tudo isso. Não se pense que liberdade é tão simplesmente fazer o que se quer, quando bem entender, sem ter que prestar satisfações dos atos e palavras. Muito pelo contrário. É inerente à liberdade  a responsabilidade e a consciência de tudo o que se faz. Liberdade implica em saber escolher o que se quer assumindo todos os desdobramentos provenientes de tal escolha, sabendo dos benefícios e dos malefícios que serão provocados a partir da ação ou da fala. Dito isto, podemos apontar para o centro do que se chama liberdade: a escolha. Liberdade implica em escolher, e escolhe bem que escolhe com consciência. Para escolher é preciso antes conhecer. Conhecer significa que você é capaz de apontar as qualidades e os limites do que está escolhendo, que é capaz de comparar e dizer o que seria mais benéfico, que é capaz de entender o que significa. Daí porque a educação tem um papel primordial na busca por ser livre. Por esse motivo os gregos recebiam educação voltada para a formação humanística, desenvolvendo a capaciade de pensar e, portanto, de escolher.

A democracia e a liberdade andam pari passu, uma junto com a outra. Voltemos agora ao início: será que vivemos em um país democrático, onde as pessoas tem liberdade? Antes de responder, vamos observar o nosso sistema educacional e nos perguntar sobre qual tem sido sua função. Em nossas escolas estamos formando pensadores capazes de atuar ativamente na vida política e na sociedade como gestores e governadores ou estamos formando indivíduos repetidores de fórmulas e pensamentos alheios, sem reflexão,  para serem governados e obedecerem as determinações de um pequeno grupo?
Edmario Nascimento da Silva

terça-feira, 27 de abril de 2010

Representar...

Em nosso dia a dia estamos cercados por imagens diversas: sinais de trânsito, ícones no computador, livros e revistas, propagandas na televisão, em outdoors, pinturas de ônibus etc. Todas essas imagens que nos bombardeiam constantemente querem nos transmitir alguma mensagem. Em alguns, para compreender essas mensagens é ncecessário ter algum conhecimento prévio, outras vezes as mensagens são direcionadas para o nosso subconsciente ou para os nossos sentimentos.

Todas essas imagens recebem o nome de representação. A representação é a tentativa de transmitir ideias através de símbolos, ou seja, uma representação qualquer é o símbolo de uma ou mais ideias que se quer fazer compreender. Tomemos como exemplo a ideia do amor. Há várias formas de representá-lo: corações vermelhos ou simplesmente corações, rosas vermelhas, através de poemas e músicas, com um olhar... todos querem transmitir o que seja o amor. Encontramos na Bíblia uma representação do que seja o amor para o apóstolo Paulo, em sua 1ª carta aos corinthios, capítulo 13. No dia dos namorados, rosas e bombons dizem "eu te amo".

Vê-se, portanto, que o ser humano sempre está buscando alguma forma de transmitir suas ideias, seja através de imagens, seja através de palavras ou através de sons. A representação acompanha o ser humano mesmo antes da escrita, quando ele fazeia pinturas nas cavernas para demonstrar a ideia que povoavam sua cabeça. A própria escrita nada mais é que a representação gráfica do som, ou símbolo que busca representar o som. Aos escrevermos estamos utilizando um sistema de símbolos convencionados para representarem determinado padrão sonoro. Por isso, a representação é constante em nossa vida.
Edmario Nascimento da Silva

domingo, 18 de abril de 2010

Homo sapiens, homo destruens

O processo evolutivo do  big bang até o surgimento da humanidade passou por violentos cataclismos de vida e de morte. Mas lentamente a vida se firmou contra as ameaças da natureza até o advento do ser humano. Alguém que ontem não tinha consciência de si hoje inicia o processo de humanização. Aos poucos enfrenta a natureza em sua força e agressividade. Dotado de razão, fabrica instrumentos como meios para subjugá-la. Quanto mais aperfeiçoa as ferramentas, tanto mais agride o ambiente. No começo, tudo caminha lentamente.

Com facilidade, imaginamos a Idade Média como momento cultural de contemplação. A expansão enorme da vida religiosa contemplativa, com mosteiros e conventos situados em lugares geográficos maravilhosos, criava uma mentalidade de admiração diante da beleza da natureza. Esta se tornara a matriz do pensar, do rezar, doagir. O ser humano se sentia pequeno em face dela. Ora o fascínio diante de momento de esplendor de beleza, ora o temor em face de catastrofes despertavam nele o sentimento religioso.

Isso é parte da verdade. Estudiosos da tecnologia denunciam ali inícios de devastação da natureza por conta da indústri do vidro, do couro e do abate de animais. Derrubavam-se árvores para alimentar o fogo dessa indústria incipiente e aquecer as casas no frio. Sem cuidados de higiene, já se poluíam as águas e os cortes da natureza feriam o equilíbrio. Anunciavam-se já estragos que rompiam a harmonia do ambiente.

O ser humano diferencia-se do animal ao introduzir desequilíbrios no mundo circundante. Em vez de ler a natureza nos seus sinais de vida e morte, impõe suas regras com outra lógica. E, aos poucos, o jogo entre vida e morte se inclina para o aumento da vida humana à custa de toda outra vida. (O DOMINGO. J.B. Libanio, sj.).

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O mito da adolescência... histórias para enrolar o coração (e a cabeça)!

Em uma época em que a ciência não havia se desenvolvido ainda, as explicações para os fenômenos extraordinários que ocorriam no dia a dia do ser humano partiam de observações da vida prática misturadas a uma imaginação fantástica. O resultado dessa mistura chamava-se mito.

Com o passar do anos e o desenvolvimento do conhecimento humano era de se supor que não haveria mais lugar para a mitologia, ou seja, explicações fantasiosas para os eventos da vida. Contudo, não foi bem assim que ocorreu. Na verdade, o avanço científico estimulou cada vez mais a criação de mitos: o trabalho dignifica o homem; todos somos iguais perante a lei; vivemos em situação de miséria porque o país é  pobre; o voto é a arma do cidadão para transformar a sociedade; quem ama é fiel; o amor supera tudo... e uma infinidade de outros contos e lendas.

Quero nesse espaço pensar sobre um deles em especial: O mito da adolescência! Nas sociedades primitivas não existe a figura do adolescente. Os "adolescentes" vivem em conjunto com os adultos assumindo responsabilidades e tarefas. Não há registro na história das civilização grega ou romana sobre qualquer coisa havida como adolescência. Entre os espartanos, os cidadãos eram afastados de suas famílias aos sete anos recebiam treinamento e assumiam a sua obrigação para com Esparta. Eram treinados nas artes de combate mas também na política. Em Atenas, a idade dos sete anos marcava o início do período de estudos em artes, filosofia, política, retórica, matemática e poesia além de cultuarem a boa forma do corpo. Entre os romanos, desde cedo, recebiam educação para a vida política e o exercício da cidadania romana. Na história, vários imperadores, reis, governantes etc tinham a idade entre 12 e 14 anos. Onde estavam as transformações psicológicas pertubadoras, capazes de desequilibrar as atitudes dos jovens e torná-los despidos de bom senso e responsabilidade? Em que lugar estavam escondidas a descompensação hormonal e as mudanças de humores que caracterizam a tal adolescência? Onde estava escondida a irresponsabilidade característica dessa tal fase? E todo o blá blá blá... onde?

Somente após a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, quando foi preciso estimular a formação de um exército de reserva é que tem início a ideia de adolescencia. Quando as condições materiais permitiram que um número cada vez menor de pessoas fossem necessárias para produzir riquezas, o número de mãos utilizadas no trabalho foi sendo reduzida. Nesse momento, ao invés de permitir aos demais usufruir das benesses do avanço, criaram mecanismos eficientes de controle das peças de reposição para o mercado de trabalho e inventaram a adolescência.

Nos dias que se seguem, a tecnologia e as ciências associados a ideologia massificadora e idiotificante do ser humano criou um híbrido perfeito: manipulável, maleável e inconsistente. A figura do adolescente ganhou o centro das atenções. A psicologia moderna encarregou-se de descarregar sobre os pais, mestres e sociedade ideias falaciosas sobre a famosa "transição" para a idade adulta. A pedagogia, em especial, procurou responsabilizar totalmente os educadores pelo fracasso do adolescente e idolatrou o sucesso de outros (raríssimos) como exemplo de jovem que supera a falta de preparo do educador. A mídia encontrou o consumidor perfeito. E o mundo paga a conta. A adolescência virou um monstro de olhos vermelhos e garras afiadas pronto para destruir a sociedade sem ter que se preocupar com qualquer consequência.

Qualquer adolescente quer ouvir que ele vive um período difícil, complicado, com muita pressão: a descoberta do amor, a transformação do corpo, a aproximação do vestibular, a sexualidade... Todos querem que se diga: Não é culpa sua! Você não tem que se preocupar com isso! Ainda são jovens e tem que aproveitar! Ao meu ver o que de fato é necessário é acabar ou pelo menos transfomar essa mitologia em algo mais palatável, mais verdadeiro. Utilizar aspectos reais (transformação do corpo, hormônios...) e misturá-los à fantasias (ser irresponsável, indeciso, inseguro...) dando vida a uma fase, não significa dizer que essa mitologia contemporânea não possa ser superada (assim como a mitologia grega foi superada pelas descobertas posteriores).

O que sei de fato é que em nada ajuda ao adolescente ratificar todas as besteiras que se diz sobre eles. A solução é simples e sempre esteve a disposição, tendo sido citada pelas sagradas escrituras em seus livros sapienciais: Educa a criança no camino reto para que não tenhas que repreender o adulto.
Edmario Nascimento da Silva

terça-feira, 13 de abril de 2010

Por que tenho que estudar?

Compreender a importância de estudar para as nossas vidas parece ser uma tarefa cada vez mais difícil e que tem se distanciado muito da nossa realidade.

É preciso voltar no tempo, para a época em que o bicho homem caminhava amedrontado pelas florestas, olhando sempre para todos os lados, tentando evitar a surpresa de um ataque de algum animal feroz. Época em que ainda não tinha desenvolvido sua capacidade de articular uma série de eventos, condições, recursos e possibilidades para fazer surgir, como que em um passe de mágica, um objeto preciso a ser utilizado como meio capaz de afastar o perigo ao mesmo tempo em que resolvia questões de outra ordem.

Foi somente quando o bicho homem teve tempo de observar que uma descarga elétrica percorreu o seu cérebro e deu início a uma série de processos que resultaram na articulação dos pensamentos que andavam soltos por sua cabeça. Olhando o crepitar das chamas que consumiam os galhos secos das árvores, encantado com a magia que brotava daquele evento, sem conseguir desviar a sua atenção, dedicando-se em observar cada estalar, cada movimento provocado pelo vento e a mudança que ocorria com a madeira que aos poucos ia se transmutando em carvão, o homem deixou de ser bicho e ganhou nova designação. Estava fadado a, daquele dia por diante, ser chamado de humano.

O ser humano nasce, portanto, junto com a capacidade do bicho homem de aprender sobre os acontecimentos que lhe são externos, transformando de uma vez por todas tudo o que tinha em seu interior. Aprende que é capaz de manipular a natureza e transformar os seus elementos em elementos novos; aprende que é capaz de utilizar os objetos criados de diversas formas diferentes, ora para se proteger, ora para comemorar, ora para se alimentar. ora para decorar; aprende que não mais precisa fugir dos outros animais, tornou-se o soberano entre os bichos; e, de forma espetacular, aprende que é capaz de transmitir, transformar, acumular e ressignificar tudo que aprendeu e cria a obra-prima de toda a existência: a educação.

De tudo que é capaz de transformar a vida dos homens e mulheres, a educação é arma mais poderosa. Se somos criativos e inventivos, dotados de uma imaginação ilimitada e capacidade de superar os obstáculos é através da educação que nos inventamos humanos. O ser humano é o produto mais bem elaborado que surgiu da transformação do espaço. Ao criar os mecanismos para superar sua limitação, o animal homem que antes era submisso a natureza criou a si mesmo diferente de todo o resto chamando-se de ser humano.

Nascemos todos como qualquer outro animal mas pela ação da educação, responsável por nos transmitir e reelaborar o conhecimento acumulado de toda uma espécie, vamos nos criando humanos. Por isso, ao agir sem pensar, abrimos mão da longa trajetória que transformou uma coisa em um ser; deixamos de agir como senhores da natureza para nos igualarmos as feras selvagens que reagem por puro instinto.

Não se surpreenda: você é o resultado de um processo dinâmico e ininterrupto de transformação de experiências práticas em conhecimentos e teorias. Não reme contra a maré. Determine onde quer chegar, aproveite a oportunidade de usufruir da educação e ajude o ser humano a dar um salto de qualidade para se transformar em uma outra espécie, melhor integrada com a natureza, superando o atual estágio de dominador da natureza para novamente se integrar a ela não mais como um bicho, uma fera, mas como um parceiro e cumplice na criação de beleza, suavidade, harmonia e paz.
Edmario Nascimento da Silva

domingo, 4 de abril de 2010

Vivendo em um aquário!

Olhe ao seu redor. Será que você consegue perceber as barreiras que existem e que impedem de viver a totalidade do seu lugar?

Todos os dias somos bombardeados por uma série de propagandas de consumo que veem carregadas de ideologias. Consumimos não apenas produtos, consumimos muito mais ideias! De verdade, viramos um outdoor ambulante fazendo propaganda gratuita de varios produtos que estão na moda. Afirmamos nossa identidade através de coisas não de personalidade, vontade ou autonomia. Estamos cada vez mais esquecendo de quem deveríamos ser e assumindo o personagem que alguém, em algum escritório confortável ou em casa, cercado de todos os luxos, preparou para nos vender.

Somos peixinhos em aquários! Acreditamos que temos liberdade, que podemos ir e vir quando bem entendermos, que podemos expressar qualquer pensamento e fazer aquilo que bem entendermos. Não enxergamos as paredes de vidro do aquário que nos prende. Vemos através dela o mundo com todas as suas possibilidades, belezas, encantos, ritmos, sons... mas não nos damos conta de que nos é permitido viver apenas um pequeno pedaço desse mundo. Somos controlados! Não vemos quem controla o que está do lado de fora do aquário. As paredes invisíveis são a maior prisão! Se não a vemos, acreditamos que somos livres. Se não a vemos, não há porque querer lutar para ter liberdade! Se não a vemos, aceitamos sem questionamentos todas as imposições que derivam de sua existência.

As paredes invisíveis que nos prendem e nos limitam podemos dar o nome de ideologia. Trata-se da maior forma de domínio já criada pelo ser humano. É a maior arma já inventada, capaz de matar sem precisar lançar sequer um pequeno projétil e ainda ser aceita como natural. As vezes parece que há uma teoria da conspiração! Na verdade, a grande sacada da ideologia é conseguir se camuflar no inconsciente fazendo com que cada indivíduo assuma para si as verdades preparadas por outros (uns pouquíssimos) que detém o controle das ideias, e portanto, o domínio sobre a vida de todo um grupo.

Combater essa dominação requer um esforço que nem todos - na verdade, quase ninguém -  está disposto a fazer! Requer a leitura constante, crítica e reflexiva, consciente que abre caminho para a autonomia do pensamento. Requer estar atento aos discursos para desconstruí-los nas componentes básicas de suas ideias, identificando-as e analisando-as, para depois se posicionar sobre a aceitação ou não dela. A escola tem sido palco de propagação de ideologias mas tem potencial para se tornar, ao exemplo de Sócrates, a arena onde a consciência emerge trazida a tona com o auxílio do professor.

Sair do aquário e aproveitar toda a capacidade do oceano: eis o sonho que devemos aspirar com toda vontade!
Edmario Nascimento da Silva

quinta-feira, 25 de março de 2010

Fábrica de cultura

Imaginemos por um instante que estamos sozinhos, mergulhados em um total vazio de ideias, sem ninguém para compartilhar os nossos anseios, medos, expectativas e sonhos. Que faríamos nessa situação? Invocar essa imagem em nossa imaginação é o primeiro passo para compreender o fato de que somos fabricantes de cultura. Por quê? Porque o fato de interagirmos com os outros indivíduos da nossa espécie nos faz adotar determinados comportamentos, eleger certos valores, escolher um ou vários tipos de alimentos etc. Nosso comportamento resulta da mistura de elementos oferecidos pelo espaço que habitamos e, ao mesmo tempo, pela nossa capacidade de viver em grupo.

A cultura é como uma corda invisível que une os indivíduos em uma porção do espaço geográfico que chamamos de lugar. Somos produtores de cultura porque produzimos a nossa existência ao criarmos o espaço em que vivemos, ao desenvolver estratégias para nossa sobrevivência. Um simples fato nos coloca na condição de fabricadores de cultura: a comunicação. Somos a única espécie capaz de transmitir e ensinar aos nossos descendentes aquilo que aprendemos. Contudo, a cultura não se resume a mera transmissão dos nossos conhecimentos, tradições, histórias, lendas... é muito mais que isso. A cultura nos dá a capacidade de transformar o que existe e de criar uma existência única. Ela própria é a ferramenta com a qual modificamos a nossa existência e, ao fazermos isso, estaremos alterando a própria cultura.

Para construirmos cultura é indispensável que estejamos em grupo. Ela é um produto coletivo. Não há que se falar em cultura individual, uma vez que o indivíduo isolado não é capaz de superar todos os obstáculos que se impõe sobre ele. Mesmo que hoje alguém decida viver sozinho, de modo isolado do restante do mundo, já estará carregando consigo o produto da interações dos grupos que o antecederam e, portanto, já terá recursos culturais que o permitirão viver isoladamente.

Ao afirmar que a cultura de um povo é um tesouro inestimável devemos ter em conta que estamos falando da própria vida desse povo. É o espírito de um grupo que pode ser materializado nos seus objetos, arquitetura, pintura e outras formas de concretude, tanto quanto nos seus conhecimentos, lendas, mitos, religião e demais elementos imateriais com os quais expressam a sua compreensão singular da vida.

Apenas a cultura é capaz de explicar a própria cultura.
Edmario Nascimento da Silva