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sábado, 28 de agosto de 2010

As metrópoles

O desenvolvimento das cidades, devido ao seu crescimento econômico e expansão urbana, gera o fenômeno das metrópoles. Esse fenômeno ocorre porque há uma integração de cidades em torno de uma área econômica de grande influência, sendo, portanto, o fator econômico o principal aspecto a ser considerado no que diz respeito à análise do espaço geográfico de uma metrópole. Ao processo de integração espacial das cidades que forma uma metrópole dá-se o nome de conurbação.



A vida em uma metrópole apresenta características diversas e conflitantes. Convivem nesse mesmo espaço a oportunidade e a exclusão, o desenvolvimento e a miséria, o lazer e a violência, a tecnologia e o atraso, riqueza e pobreza... Há, portanto, um universo paralelo coexistindo com toda a exuberância das metrópoles. Todas elas apresentam problemas que são comuns aos grandes centros: criminalidade, violência, excesso de lixo, poluição de todos os tipos, desigualdade, desemprego, trânsito...

No Brasil, o fenômeno da metropolização concentra-se em torno das capitais, uma vez que são os pontos do espaço geográfico que apresentam maior desenvolvimento. Contudo, nem todas as capitais atingiram o status de metrópoles. Isso porque há regiões que não estão totalmente integradas a economia do país, refletindo-se em seu baixo desenvolvimento.

De fato, a maior metrópole brasileira é São Paulo. Essa concentra o maior desenvolvimento econômico do país. Por lá transitam os fluxos da globalização (processo atual de expansão capitalista sobre o espaço geográfico), arrastando consigo elementos da cultura de diversos países, inovações tecnológicas, pesquisas científicas etc.

Podemos concluir que a metropolização de uma região culmina com um forte impacto sobre o espaço, exigindo dos recursos naturais disponíveis - a água, por exemplo - para além de sua capacidade. Traz também impactos sociais, políticos e implicações culturais. A gestão de uma metrópole não é fácil! Poderíamos pensar que a metropolização é um processo de desorganização do espaço que tem como resultado a acentuada aglomeração humana e a intensificação dos impactos da ação antrópica.

Enfim, as metrópoles parecem juntar sonhos e pesadelos em um mesmo espaço. E que viva o desenvolvimento econômico!!!

Edmario Nascimento da Silva

AS CIDADES - A CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO URBANO

A cidade é o resultado da diversificação das atividades econômicas e do aperfeiçoamento do trabalho do campo, que possibilitou a liberação do trabalho humano para outras atividades não ligadas diretamente a sobrevivência. Ao elaborar técnicas de cultivo que permitiram produzir mais alimentos empregando número menor de mão de obra, parte da população do campo ficou liberada para desenvolver outros ramos do conhecimento humano e executar novas tarefas e atividades. Mais tarde, essa população se deslocou do campo e criou a cidade.



A Infraestrutura das cidades é mais complexa. Os principais elementos que a identificam são:



Aglomeração urbana; atividades econômicas diversificadas; atividades religiosas; atividade político-administrativa; debate cultural; as construções são próximas umas das outras; maior número de pessoas; estradas; sistemas de comunicação; meios de transporte variado; centro comercial; centro político-administrativo; centro financeiro; diversidade religiosa; produção e circulação de mercadorias; indústria; comércio; setor de serviços; marketing e propaganda.



Atividade religiosa



A liberação do ser humano da condição de preso ao trabalho com a terra para garantir sua sobrevivência permitiu o estímulo a sua imaginação, abrindo caminho para a procura da divindade ou para criação das divindades, buscando explicações para sua existência e para os fenômenos tidos como fantásticos.



Atividades político-administrativas



Diz respeito às decisões sobre a organização do espaço, o uso dos recursos, a distribuição de direitos e deveres e a própria participação nessas decisões.



Debate cultural



A cultura expressa-se no modo como o ser humano realiza a sua existência material e imaterial. No espaço da cidade, essas formas de expressar a vida entram em conflito gerando discussões sobre valores e escolhas que orientam ou devem orientar o fazer humano.



Conceitualmente, cidade é toda sede de município, independente de aspectos como aglomeração, concentração, função econômica, grau de modificação da paisagem natural etc. As cidades são centros onde os indivíduos podem adquirir ou vender mercadorias e usufruir os serviços de que necessitam.



Município é uma unidade político-administrativa dividida em área rural e urbana. A sede da prefeitura sempre fica na área urbana e, quando esta cresce mais que a zona rural, ocorre urbanização.



A organização do espaço urbano está baseada na divisão do trabalho imposta pelo sistema capitalista, criando desigualdades sociais e econômicas que se refletem na paisagem. O sistema capitalista baseia-se na divisão da sociedade em classes econômicas, com capacidade para consumir bens e serviços, e na separação entre a força de trabalho e a propriedade dos meios de produção. Essa divisão encontra-se refletida na forma como o espaço está organizado, uma vez que a infraestrutura da cidade, principalmente, tende a ser mais complexa nas áreas ocupadas pela classe econômica mais abastada.



As cidades, portanto, são o resultado da organização humana do espaço, da forma como o ser humano produz e distribui sua riqueza, ao passo que realiza a sua existência.

Edmario Nascimento da Silva

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A sociedade e o conflito

Um dos traços marcantes dos seres humanos é o fato de que vive em constante conflito: consigo por algo que fez ou deixou de fazer, por não ser melhor ou por perder oportunidades; conflito com os outros porque não consegue compreender suas ideias ou o que está sendo dito; conflito com a natureza, dado a inclinação para querer domesticar tudo ao seu redor.

O conflito é um fato concreto, real, inerente a espécie humana e de grande importância. A vida em sociedade gera inevitavelmente o conflito. Onde duas ou três pessoas estiverem reunidas, conversando sobre assuntos banais ou de grande relevância, instalar-se-á o conflito. A razão disso reside na capacidade inata de gerarmos ideias e pensamentos distintos dos demais. É uma marca implícita da condição humana.

Muitos entendem que para se viver em sociedade de forma harmônica e em paz é necessário que não haja o conflito. Contudo, esse elemento é vital, essencial e indispensável para a sociedade. A discordância de ideias possibilitou, possibilita e possibilitará que avancemos nas descobertas científicas, nos valores políticos, éticos, morais e estéticos, no desenvolvimento e aperfeiçoamento do espaço geográfico, nas soluções de problemas em comum. O conflito estimula a inteligência. A questão, portanto, não é a ausência do conflito para que possamos viver em uma sociedade unida, harmônica e em paz. O que se faz necessário é aprender a lidar com conflito, buscar nele motivo para superação. Falta para a sociedade a capacidade de dialogar - cuja ausência é muito mais grave.

Fomos educados para entender os momentos de conflito como desagradáveis, indigestos, desnecessários e improdutivos. Aprendemos a mascarar as situações: dizer sim quando deveríamos dizer não, sorrir quando queríamos chorar, aplaudir quando queríamos esbravejar, calar quando queríamos fociferar a plenos pulmões as nossas razões. Nessa sequência, procuramos evitar a todo custo o conflito para não nos sentirmos feridos ou ferir. Sempre que isso nos acontece, perdemos a oportunidade de aprender a gerenciar um momento que é rico de oportunidades: para o aprendizado do diálogo, para o exercício da tolerância, a prática da análise e argumentação, a defesa de posicionamento a partir de ideias, o treino da escuta sensível que torna capaz utilizar as palavras certas para abrir portas e conquistar corações e mentes... e assim, uma série de benfeitorias possíveis de acontecer.

Uma sociedade harmônica não é uma sociedade sem conflitos. Antes, é a expressão de uma sociedade que aprendeu a dialogar a partir dos seus conflitos, aproveitando para ressaltar o melhor e mais útil. Uma sociedade harmônica é aquela que não foge das controvérsias inevitáveis advindas de uma complexidade formada por indivíduos dotados de inteligência e particularidades, mas potencializa aspectos relevantes que tornam salutar a discussão, o debate, a argumentação, a paixão e os sentimentos. A paz tão buscada não irá surgir da ausência de conflitos, mas da capacidade de gerenciá-los.

Portanto, cabe educarmo-nos para vivermos autenticamente em grupo, com todas as situações oriundas dessa condição, não negando a nossa natureza conflitante, posto que isso só ocorre devido ao uso de nosso maior dom: a inteligência. Usemos, então, de inteligência para resolver os enigmas que outras inteligências criam em nosso dia-a-dia sem precisar incorporar o Massaranduba (aquele do Casseta & Planeta).
Edmario Nascimento da Silva

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A vida em sociedade

Viver em sociedade garantiu a espécie humana não só sobreviver mas também possibilitou avanços e desenvolvimento de estruturas complexas e que se aperfeiçoam a medida que novas exigências vão sendo colocadas pelas diversidades e adversidades que a vida em grupo impõem.

Poderíamos elencar vários fatores importantes para uma convivência possível em sociedade, contudo, vamos nos concentrar unicamente em um: o trabalho. É através do trabalho - como já constatamos em outra oportunidade, ao analisar a formação do espaço geográfico - que o ser humano consegue garantir sua sobrevivência, fazendo surgir inúmeras funções e atividades que só se tornaram possível a partir do momento em que a oferta de alimentos tornou-se suficiente e liberou parte da população para atuar em outras áreas de interesse. O trabalho garante a existência material (casa, comida, roupa, transporte...) do indivíduo mas, também garante a sua existência imaterial, psicológica, invisível, imaginária. Uma sociedade será tanto mais complexa quanto mais complexas forem as atividades e funções desempenhadas pelos indivíduos em seu interior.

Quando estamos estudando a organização do espaço geográfico, pode parecer que foi somente quando o ser humano começou a viver em grupo que as atividades destinadas a garantir a sobrevivência passaram a ser organizadas. No entanto, cabe a ressalva de que foi a organização de tais atividades quem organizou a vivência em grupo. Todo o espaço geográfico está organizado em função do trabalho.

A produção de riqueza, o luxo, o ócio, o lazer e todas as beneses de que alguns poucos desfrutam em nossa sociedade somente são possíveis porque existe alguém para trabalhar e pagar por isso. Quando falamos que há desigualdade social, muitas vezes nos escapa o fato de que essa desigualdade não está no fato de, simplesmente, não termos acesso ao bens e serviços, e sim no fato de que não valorizamos quem de fato proporciona a existência desse bens e serviços.

Quando em exercício de raciocínio, imaginamos quais os elementos indispensáveis para a vida em sociedade, enumeramos sentimentos e valores como o amor, a compreensão, o respeito, o diálogo, a paz, o perdão...etc, deixamos de observar que tudo isso só será possível se, e somente se, houver o reconhecimento devido de que tudo deriva do trabalho.

Nossa sociedade construiu-se sobre um lema: O trabalho dignifica o homem. Contudo, diante da forma como os trabalhadores são expropriados de sua dignidade no cotidiano, seria melhor fazermos uma correção na frase: O trabalho DANIFICA o homem. Assim sendo, procuremos analisar em nosso dia a dia qual o papel que cada um desempenha na construção desse clube que chamamos de sociedade.
Edmario Nascimento da Silva

terça-feira, 4 de maio de 2010

Afinal, que bicho é esse?

Não! Não vamos falar aqui de uma espécie exótica qualquer. Trata-se de um espécime complexo, de difícil convivência, com muitas artimanhas, capaz de enganar os ingênuos. Parece dócil mas é muito perigoso. Muito cuidado ao lidar com ele pois sua mordida é mortal.

Estamos falando do Estado! Entender o que é e como funciona essa entidade fantástica e ficcional não é tarefa simples. Requer atenção a muitas entrelinhas, muita leitura e reflexão e uma observação aguda. Historicamente, surgiu ainda no período da antiguidade clássica a partir do desenvolvimento da agricultura, da aglomeração das aldeias e da diversificação da tarefas e funções. Várias teorias tratam do surgimento do Estado. Os intelectuais do iluminismo concordavam em certa medida com a ideia do contratualismo, ou seja, de que ele é fruto de um consenso entre os indivíduos. Dir-se-ia que a intenção de sua criação está associada a necessidade de ter um terceiro com capacidade para decidir as questões entre os indivíduos que compunham a sociedade. Forma-se um grupo de pessoas cuja função é gerenciar os aparelhos estatais. De lá para cá várias transformações na sociedade promoveram também transformações no Estado.

As obras de Hobbes, Montesquieu, Rousseau, Locke, Voltaire, Maquiavel e Marx nos dão uma visão panorâmica do que vem a ser essa criatura difícil de compreender.

A principal característica a ser considerada com relação ao Estado, entre outras que podem esclarecer o seu papel junto a sociedade, é o de ser o portador do direito de criar as leis. É através do sistema jurídico que ele mantém um controle da vida da sociedade - entenda-se que ao falar vida são todos os aspectos: trabalho, salários, educação, tributos, taxas, alimentação, meio ambiente etc. As leis são tentáculos invisíveis que se estendem até os cidadãos e os controlam de seu nascimento até sua morte, dizendo o que pode e o que não pode ser feito, quando e como devem agir cada indivíduo. O principal é que ele, o Estado, cria uma ilusão capaz de cegar os indivíduos. Em seu surgimento esperava-se que ele regulamenta-se a convivência entre as pessoas, nos dias atuais o que se observa é seu uso por um pequeno grupo para satisfazer suas ambições e, o que é mais grave, não é esse grupo que ocupa o aparelho estatal quem comanda tudo. São também eles subordinados de um grupo menor e que é invisível aos olhos mortais, desavisados, desinformados, desatentos e obrigados a olhar apenas para a sua sombra, com a cabeça abaixada pelo peso dos problemas sociais e das dificuldades que encontram para garantir a sua sobrevivência.

Não é possível esgotar a discussão sobre o Estado em apenas algumas poucas linhas ou em uma ou duas conversas. Requer leituras e debates diversos. É preciso se cercar de muitas informações e reflexões, está disposto a debater mas, principalmente, estar aberto para compreender as ideias antes de aceitá-las ou rejeitá-las.
Edmario Nascimento da Silva

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Escala

Há alguns anos, o cinema apresentou um filme de ficção-comédia chamado "Querida, encolhi as crianças". Nele, o pai (um cientista meio pirado) desenvolve um raio de encolhimento que, acidentalmente, atinge os filhos e os fazem ver o mundo de um modo diferente, com todas as coisas em tamanho gigantesco para eles.

A ideia de poder encolher as coisas parece irreal mas não está longe da realidade. Hoje é possível construir pequenos robôs a partir de nanotecnologia, fazendo-os tão minúsculos que são capazes de operar o coração de uma pessoa sem a necessidade de fazer incisões (cortes). Temos celulares minúsculos, chips de computadores cada vez menores e uma série de outras invenções. Logo, não é impossivel encolher as coisas.

Com o espaço geográfico não é muito diferente. Você poderia estar pensando: "Como vai ser possível encolher o espaço geográfico?". A resposta para essa pergunta dada a muito tempo atrás, pelos primeiros cartógrafos. Ao perceberem a necessidade de criar representações do espaço, esbarraram no problema de manter a fidelidade para com o espaço real. A solução foi simples: uma vez que sabiam o tamanho do espaço que se queria representar e o tamanho da superfície onde esse espaço seria representado (inicialmente argila, depois pele de animais e papiro, papel e, finalmente, eletrônico), aplicaram conhecimento matemático para garantir a proporcionalidade entre eles. Dividiram o tamanho da maior distância de fronteira do espaço pelo maior tamanho da superfície onde seria gravada a representação e encontraram um valor que indicava em quantas vezes foi reduzida a realidade para criar a representação. Ao resultado encontrado atribuiu-se o nome de escala. Matematicamente, podemos expressar essa relação conforme o exemplo: 1:25.000.000 (lê-se um centímetro equivale a vinte e cinco milhões de centímetros. Perceba-se, portanto, que a escala é o resultado da relação entre o tamanho real e o tamanho representado. Não se pode dizer que utilizamos a escala para reduzir algo. Na verdade, a escala é o que resulta da redução.

A escala é um indicador para sabermos calcular os valores reais das distâncias que estão representadas em um mapa ou outro tipo de representação cartográfica. Quando tomamos uma distância em um mapa, que será dada em centímetros, multiplicamos o valor encontrado pelo valor indicado na escala. Para isso, é necessário converter o valor para quilômetros. Na escala acima, 25.000.000 de centímetros correspondem a 250 quilometros. Assim, se no mapa encontramos uma distância de 3 cm, multiplicamos por 250 e encontramos o valor de 750 km.

A leitura constante e a observação são suficientes para compreender como funciona essa ferramenta útil no mundo da geografia.
Edmario Nascimento da Silva

terça-feira, 27 de abril de 2010

Representar...

Em nosso dia a dia estamos cercados por imagens diversas: sinais de trânsito, ícones no computador, livros e revistas, propagandas na televisão, em outdoors, pinturas de ônibus etc. Todas essas imagens que nos bombardeiam constantemente querem nos transmitir alguma mensagem. Em alguns, para compreender essas mensagens é ncecessário ter algum conhecimento prévio, outras vezes as mensagens são direcionadas para o nosso subconsciente ou para os nossos sentimentos.

Todas essas imagens recebem o nome de representação. A representação é a tentativa de transmitir ideias através de símbolos, ou seja, uma representação qualquer é o símbolo de uma ou mais ideias que se quer fazer compreender. Tomemos como exemplo a ideia do amor. Há várias formas de representá-lo: corações vermelhos ou simplesmente corações, rosas vermelhas, através de poemas e músicas, com um olhar... todos querem transmitir o que seja o amor. Encontramos na Bíblia uma representação do que seja o amor para o apóstolo Paulo, em sua 1ª carta aos corinthios, capítulo 13. No dia dos namorados, rosas e bombons dizem "eu te amo".

Vê-se, portanto, que o ser humano sempre está buscando alguma forma de transmitir suas ideias, seja através de imagens, seja através de palavras ou através de sons. A representação acompanha o ser humano mesmo antes da escrita, quando ele fazeia pinturas nas cavernas para demonstrar a ideia que povoavam sua cabeça. A própria escrita nada mais é que a representação gráfica do som, ou símbolo que busca representar o som. Aos escrevermos estamos utilizando um sistema de símbolos convencionados para representarem determinado padrão sonoro. Por isso, a representação é constante em nossa vida.
Edmario Nascimento da Silva

domingo, 18 de abril de 2010

Homo sapiens, homo destruens

O processo evolutivo do  big bang até o surgimento da humanidade passou por violentos cataclismos de vida e de morte. Mas lentamente a vida se firmou contra as ameaças da natureza até o advento do ser humano. Alguém que ontem não tinha consciência de si hoje inicia o processo de humanização. Aos poucos enfrenta a natureza em sua força e agressividade. Dotado de razão, fabrica instrumentos como meios para subjugá-la. Quanto mais aperfeiçoa as ferramentas, tanto mais agride o ambiente. No começo, tudo caminha lentamente.

Com facilidade, imaginamos a Idade Média como momento cultural de contemplação. A expansão enorme da vida religiosa contemplativa, com mosteiros e conventos situados em lugares geográficos maravilhosos, criava uma mentalidade de admiração diante da beleza da natureza. Esta se tornara a matriz do pensar, do rezar, doagir. O ser humano se sentia pequeno em face dela. Ora o fascínio diante de momento de esplendor de beleza, ora o temor em face de catastrofes despertavam nele o sentimento religioso.

Isso é parte da verdade. Estudiosos da tecnologia denunciam ali inícios de devastação da natureza por conta da indústri do vidro, do couro e do abate de animais. Derrubavam-se árvores para alimentar o fogo dessa indústria incipiente e aquecer as casas no frio. Sem cuidados de higiene, já se poluíam as águas e os cortes da natureza feriam o equilíbrio. Anunciavam-se já estragos que rompiam a harmonia do ambiente.

O ser humano diferencia-se do animal ao introduzir desequilíbrios no mundo circundante. Em vez de ler a natureza nos seus sinais de vida e morte, impõe suas regras com outra lógica. E, aos poucos, o jogo entre vida e morte se inclina para o aumento da vida humana à custa de toda outra vida. (O DOMINGO. J.B. Libanio, sj.).

terça-feira, 13 de abril de 2010

Por que tenho que estudar?

Compreender a importância de estudar para as nossas vidas parece ser uma tarefa cada vez mais difícil e que tem se distanciado muito da nossa realidade.

É preciso voltar no tempo, para a época em que o bicho homem caminhava amedrontado pelas florestas, olhando sempre para todos os lados, tentando evitar a surpresa de um ataque de algum animal feroz. Época em que ainda não tinha desenvolvido sua capacidade de articular uma série de eventos, condições, recursos e possibilidades para fazer surgir, como que em um passe de mágica, um objeto preciso a ser utilizado como meio capaz de afastar o perigo ao mesmo tempo em que resolvia questões de outra ordem.

Foi somente quando o bicho homem teve tempo de observar que uma descarga elétrica percorreu o seu cérebro e deu início a uma série de processos que resultaram na articulação dos pensamentos que andavam soltos por sua cabeça. Olhando o crepitar das chamas que consumiam os galhos secos das árvores, encantado com a magia que brotava daquele evento, sem conseguir desviar a sua atenção, dedicando-se em observar cada estalar, cada movimento provocado pelo vento e a mudança que ocorria com a madeira que aos poucos ia se transmutando em carvão, o homem deixou de ser bicho e ganhou nova designação. Estava fadado a, daquele dia por diante, ser chamado de humano.

O ser humano nasce, portanto, junto com a capacidade do bicho homem de aprender sobre os acontecimentos que lhe são externos, transformando de uma vez por todas tudo o que tinha em seu interior. Aprende que é capaz de manipular a natureza e transformar os seus elementos em elementos novos; aprende que é capaz de utilizar os objetos criados de diversas formas diferentes, ora para se proteger, ora para comemorar, ora para se alimentar. ora para decorar; aprende que não mais precisa fugir dos outros animais, tornou-se o soberano entre os bichos; e, de forma espetacular, aprende que é capaz de transmitir, transformar, acumular e ressignificar tudo que aprendeu e cria a obra-prima de toda a existência: a educação.

De tudo que é capaz de transformar a vida dos homens e mulheres, a educação é arma mais poderosa. Se somos criativos e inventivos, dotados de uma imaginação ilimitada e capacidade de superar os obstáculos é através da educação que nos inventamos humanos. O ser humano é o produto mais bem elaborado que surgiu da transformação do espaço. Ao criar os mecanismos para superar sua limitação, o animal homem que antes era submisso a natureza criou a si mesmo diferente de todo o resto chamando-se de ser humano.

Nascemos todos como qualquer outro animal mas pela ação da educação, responsável por nos transmitir e reelaborar o conhecimento acumulado de toda uma espécie, vamos nos criando humanos. Por isso, ao agir sem pensar, abrimos mão da longa trajetória que transformou uma coisa em um ser; deixamos de agir como senhores da natureza para nos igualarmos as feras selvagens que reagem por puro instinto.

Não se surpreenda: você é o resultado de um processo dinâmico e ininterrupto de transformação de experiências práticas em conhecimentos e teorias. Não reme contra a maré. Determine onde quer chegar, aproveite a oportunidade de usufruir da educação e ajude o ser humano a dar um salto de qualidade para se transformar em uma outra espécie, melhor integrada com a natureza, superando o atual estágio de dominador da natureza para novamente se integrar a ela não mais como um bicho, uma fera, mas como um parceiro e cumplice na criação de beleza, suavidade, harmonia e paz.
Edmario Nascimento da Silva

segunda-feira, 29 de março de 2010

Por que a água?

Que a água é um bem precioso todo mundo tem certeza! Entretanto, quantas pessoas estão realmente preocupadas com o destino dela?

O consumo desmedido que tem lugar nos dias de hoje cria um contínuo desperdício de tudo que nos cerca: água, energia, pessoas, esforços, inteligência, trabalho, tempo, sonhos, perspectivas... Tudo é quantificado e medido, avaliado segundo um critério estritamente financeiro, o quanto vale em dinheiro ou em capacidade de se tornar dinheiro.

Mede-se a capacidade do indivíduo de consumir e gerar desperdício. Na lógica capitalista atual, tornada massificadora ao extremo pelo fenômeno cruel da globalização, o cidadão cede lugar para o consumidor. Viramos figuras em um tabuleiro com uma plaquinha indicativa do nosso valor no mercado, colocados a disposição e em exposição contínua para aqueles que possam se interessar.

O desperdício gerado pelo consumo desregrado, irracional, quase infantil, interessa as grandes empresas multinacionais que atuam de forma feroz no controle do mundo. Imaginamos que o Estado, representado pelo governo, age em interesse da população, defendendo-nos de um destino atroz e avassalador. Contudo, o que se constata é a submissão das políticas públicas aos interesses econômicos do grande capital especulativo.

Não estou fugindo do tema água, mas aprofundando a sua discussão. Sendo um recurso de primeira necessidade em qualquer lugar do planeta, tornado escasso, terá o seu valor multiplicado por milhões. Quem controlar as reservas naturais de água, controlará o destino de bilhões de pessoas. O controle do uso e consumo generalizado desse recurso fornece uma situação privilegiada para quem detém o direito de explorá-lo. Com certeza caminhamos para uma privatização desse recurso, com limitação da oferta para a população em geral.

A água está presente em todos os elementos que nos cercam. Da produção de uma folha de papel até a fabricação de uma estação espacial; do cultivo de uma hortaliça a produção de energia. Há água em todas as coisas, mesmo que não seja perceptível a olho nú. A água irriga a nossa massa corporal de forma a permitir a nossa existência. Ela flui junto com a vida!

Relacionar cidadania e água é repensar o modelo de vida e consumo que adotamos como sendo o melhor, mais confortável, mais cômodo. É refazer a cultura imposta pelas estratégias globais, mudando o foco de importância do dinheiro para o indivíduo. É resgatar os valores de sociabilidade e solidariedade que foram descartados pela empresas como desnecessários e atrasados, impedidores do progresso. Enfim, é reconstruir o espaço geográfico a partir de novos valores centrados nos seres humanos e não no objeto dinheiro.
Edmario Nascimento da Silva

Uma mudança de paradigma

Vivemos em um período totalmente dominado pela ideologia. Parece a repetição de um clichê, mas é a mais atual das constatações. A ideologia ganhou formas e cores, sons e luzes, passando a fazer parte do nosso dia a dia, enraizado em nossos pensamentos e pragmatismos. Deixou de ser imaterial e se materializou na forma de novos produtos derivados da tecnologia e da aplicação de técnicas cada vez mais unificadas. O pensamento produzido por uma lógica perversa, que considera todos como coisas e que antevê a diminuição da participação das pessoas na economia e na vida, relegados a condição de excluídos.

Produz-se, hoje, discursos que antecipam o que ainda não existe como fato já consumado, existente e natural. Antes que se possa pensar a respeito, somos bombardeados por ideias que não se sabe de onde vieram ou para onde vão, apenas consome-se sem questionamentos. Assim, nasce também uma produção de conhecimentos que ao invés de nos estimular um pensamento libertador nos prende em uma caixa forte, um cofre, impedindo-nos de questionar "quem mexeu no meu queijo?" porque não há tempo a perder nessa trajetória de mudanças ininterruptas. Simplesmente temos que nos lançar em uma corrida desenfreada por buscar as migalhas que nos são ofertadas por quem controla todas as possibilidades e todos os estoques, obrigando-nos a aceitar como natural o movimento artificial de retirar a dignidade, a cidadania e a participação na vida da sociedade. Não há tempo a perder.

A maior arma contra o mal que nos ameaça e nos oprime, a informação, virou o maior veículo de reprodução dessa situação. As informações são manipuladas para convencer a todos de que não há retorno ou solução. Estamos cada vez mais desinformados e deformados. Por onde anda a educação? Cumprindo o seu papel de perpetuar o sistema cruel e excludente, onde não há espaços para a solidariedade e o pensamento político.
Edmario Nascimento da Silva

domingo, 28 de março de 2010

Geografia e poder

As relações que se estabelecem dentro de determinado espaço dominado pelo ser humano são de total interesse dos estudos geográficos. A interação dos grupos humanos entre si e com o ambiente que o cerca são significativas para compreender a forma como esse grupo se organiza para produzir sua existência e para transformar a natureza de forma a atender às suas necessidades.

Uma vez que a geografia se ocupa de estudar as relações vísiveis e invisíveis que constroem o espaço geográfico, devemos considerar esse estudo como uma análise, também, da forma como o poder se manifesta na organização social, não querendo com isso fazer uma análise antropológica nem sociológica, mas respaldando-se nesses ramos do conhecimento para construir a teia de situações que se entrelaçam para determinar o domínio de uns sobre outros.

Entender que o poder que aqui tratamos é a capacidade de influenciar, determinar, manipular, ocultar, transformar e direcionar as relações que se processam no espaço geográfico é de fundamental importância para compreender de que forma os estudos geográficos são capazes de revelar o poder manifesto no espaço.

Ao longo dos anos, desde que os seres humanos foram capazes de observar a natureza para transformá-la, criou-se uma distinção entre os grupos: de um lado, aqueles capazes de criar soluções para os problemas, capazes de gerenciar as situações, capazes de determinar as necessidades prioritárias a serem atendidas, capazes de controlar a produção de bens, capazes de manipular as informações que seriam disseminadas como verdades entre todos; do outro, aqueles que simplesmente seguiam as determinações dos demais, sem se questionar ou se colocar como agente transformados, apenas executores. Dessa distinção nasceram as relações de poder. O domínio de um grupo pelo outro se dá na medida em que um é capaz de controlar a oferta de oportunidades, a forma como será disposta a distribuição dos bens e riquezas, o acesso a informação, a circulação de informações, a divisão espacial, a infraestrutura... todas essas situações fazem parte das relações de poder que ocorrem no espaço.
Compreenda-se, portanto, que o estudo do espaço geográfico - objeto de estudo da geografia - vai além de decorar nomes de países, rios, montanhas etc. É a busca da compreensão das dinâmicas sociais que se manifestam na forma de organização do espaço, traçando linhas invisíveis que explicam a ocupação e utilização do território por grupos humanos diversos. É o estudo da forma como o ser humano foi capaz de se desenvolver tendo que se relacionar com a natureza e com o seu semelhante.

Geografia e poder é, portanto, o tema central dos estudos traçados para essa disciplina científica muitas vezes desprezada.
Edmario Nascimento da Silva

quinta-feira, 25 de março de 2010

O lugar

Quando falamos em lugar, nem sempre compreendemos o significado da palavra. O termo lugar, quando utilizado dentro do contexto da geografia, refere-se a uma porção do espaço geográfico carregado de significado para um indivíduo ou um grupo determinado. O lugar é um recorte do espaço geográfico onde se estabelecem relações visíveis e invisíveis; onde os sentimentos e sentidos que carregamos ganham um significado especial. É no lugar onde produzimos cultura, onde refazemos a nossa vida, onde descobrimos possibilidades.

Falar em lugar é ter consciência da formação do espaço em suas várias perspectivas: interação entre as pessoas, estratégias para superar as dificuldades, troca de ideias, exercício da política, mudanças nos padrões de comportamento... é um todo complexo cheio de emaranhados, caminhos e descaminhos.

Para entender o significado do lugar é preciso viver o lugar, experimentá-lo. A descoberta desse significado é, antes de tudo, uma experiência pessoal e intransferível. Nesse caso, a geografia atua em um mundo imaterial que se guia pelos sentimentos. Mundo intangível do qual emerge uma centena de situações postas e compostas de diversas e diminutas partes que vão se apresentando ao longo do tempo, da necessidade e das possibilidades.

É importante visualizar o espaço geográfico como um todo para não perder de analisar seus aspectos intrínsecos e ocultos a olhos desatentos. Viver o espaço para compreender o espaço vivido.
Edmario Nascimento da Silva

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A construção do espaço geográfico

A geografia estuda o espaço onde vivem os homens, preocupando-se em saber como as sociedades se organizam, qual a sua relação com a natureza e quais as transformações que impõem ao espaço.

Ao se estudar o espaço geográfico, examinam-se elementos físicos, como os rios, o relevo e a vegetação, e também elementos humanos, isto é, criados ou transformados pelos homens de acordo como os seus interesses e necessidades (cidades, estradas, plantações etc.)

Se pudéssemos ver o planeta Terra à grande distância, observaríamos a forma arredondada que possui. Se nos aproximássemos um pouco, seria possível perceber a paisagem terrestre, constituída por oceanos e continentes. Seria possível, também, perceber que nos continentes há muitas montanhas e inúmeros rios.

Caso fosse possível observar essa paisagem milhares de anos depois, seriam evidentes algums mudanças, pôs a chuva, o vento, os rios, os vulcões e os terremotos, além das plantas e animais, alteram continuamente a fisionomia do nosso planeta.

Além disso, também haveria mudança decorrente principalmente da ação do homem, como a construção de cidades, de estradas, de represas, a secagem da exploração agropecuária, extrativista, industrial e muitas outras transformações.

Não se pode esquecer, ao estudar as paisagens geográficas, que os elementos físicos e humanos constituem um todo e estão sempre relacionados entre si.
Edmario Nascimento da Silva